Ética e Gestão de Projetos

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Faltam poucos dias para fecharmos 2017. Ufa!!!! Foi um ano complicado. Chegamos meio estropiados ao final, vivos, mas exaustos como se tivéssemos voltando de uma batalha.

Em nenhum momento de nossa história recente, ouvimos falar tanto de corrupção, corruptos, lavagem de dinheiro, sonegação, desvios, processos, injúrias, difamações, etc. Tetos que considerávamos à prova de tempestades e furacões caindo à nossa frente, uma enxurrada de denúncias e uma incrível atuação da nossa Polícia Federal desnudam o lado podre do poder. Cabeças rolam, prestígios se abalam, figurões detidos em presídios insalubres.

Você imaginou que um dia pudesse assistir a tudo isso? Eu confesso que não! Achei que o poder econômico pudesse varrer sempre para baixo do tapete as contravenções, os crimes, os arranjos, as formas ilícitas de ficar milionário em menos de 5 anos, sendo apenas um agente público – e ainda tem gente que reclama que o Estado paga mal…

Nesse momento, em que muitos fazem reflexões sobre o ano que passou, gostaria de lançar uma ideia sobre um velho assunto aos muitos colegas dessa profissão que abraçamos e que por essa razão buscamos constantemente formas de melhorar nossas atuações, seja na busca por conhecimentos técnicos ou mesmo conhecimentos humanos. Porque nós Gerentes de Projetos, trabalhamos sobretudo com Pessoas – que participam e fazem parte do sucesso ou fracasso de qualquer projeto.

Muito se escreve sobre gestão de projetos, sobre métodos, ferramentas e processos para se gerir escopo, custos, prazos, recursos, comunicação, riscos, aquisições, qualidades e os interessados. No entanto, pouco falamos de ética. Tentamos nos convencer que a questão ética é de menor valor ou importância no ambiente dos projetos.

Quando se fala em ética há uma tendência geral de se acreditar que esse assunto não é para nós – é para os outros, porque nos vemos revestidos de valores e princípios morais. Mesmos aqueles que cometem delitos contra a sociedade, que desviam, sonegam, se usufruem do Estado para ascensões pessoais, acreditam possuírem o mais alto padrão Ético.

As sociedades que evoluem, sob os pontos de vista culturais, financeiros, de eficiência do Estado e também, eticamente são aquelas que promovem, definem e cobram de seus cidadãos condutas éticas. Nessas sociedades, se ensina desde o berço, os limites, os deveres e as responsabilidades dos indivíduos. Não esperam nem fomentam que os cidadãos criem códigos de éticas próprios e exclusivos, onde um pode errar em detrimento do outro, dependendo exclusivamente da sua posição social ou cargo político – o erro, a falta, as más práticas são claramente definidos e combatidos nessas sociedades.

Nós brasileiros, em geral, fazemos sempre comentários cretinos quando retornamos de uma viagem a algum pais dito do primeiro mundo: “São tão evoluídos, não jogam lixo nas ruas”; “Pode-se perder um objeto de valor e alguém irá devolvê-lo”, dentre outros que todos nós falamos e ouvimos.

Vem a pergunta: Nesses países as pessoas nasceram assim evoluídas ou isso é resultante da prática de um conjunto de valores morais que são disseminados, insistidos, valorizados e replicados implícita e explicitamente?

Considerando esse tema, não só pelo seu valor intrínseco, mas também sob o ponto de vista de seu total alinhamento ao momento que vivemos no Brasil, gostaria de compartilhar algumas ideias e informações que recolhi.

História do Código de Ética do PMI

A visão do PMI sobre o gerenciamento de projetos como uma profissão independente conduziu aos primeiros trabalhos sobre ética. Em 1981, o Conselho de Administração do PMI formou um Grupo de Ética, Padrão e Credenciamento. Esse grupo produziu um relatório que continha a primeira discussão de ética documentada para a profissão de gerenciamento de projetos.

No final da década de 1980, esse padrão evoluiu e tornou-se o Padrão de Ética para o Profissional de Gerenciamento de Projetos (PMP®).

Em 1997, o Conselho do PMI determinou a necessidade de um código de ética do membro. O Conselho do PMI formou o Comitê de Documentação de Políticas Éticas para redigir e publicar um padrão de ética para a adesão ao PMI. O novo Código de Ética dos Membros.

Desde sua adoção em 1998, muitas mudanças dramáticas ocorreram no PMI e no mundo dos negócios. A adesão ao PMI cresceu significativamente. Um grande crescimento também ocorreu em regiões fora da América do Norte.

No mundo dos negócios, os escândalos de ética causaram a queda de corporações globais e sem fins lucrativos, causando indignação e aumento de regulamentos governamentais.

A globalização aproximou as economias, mas causou a percepção de que nossa prática de ética pode diferir de cultura para cultura. O ritmo rápido e contínuo das mudanças tecnológicas proporcionou novas oportunidades, mas também introduziu novos desafios, incluindo novas questões éticas.

Por estas razões, em 2003, o Conselho de Administração do PMI pediu o reexame dos códigos de ética e, também, encomendou ao Comitê de Revisão dos Padrões de Ética [ESRC] o desenvolvimento de um processo para revisão dos códigos. O ESRC desenvolveu processos que incentivaram a participação ativa da comunidade de gerenciamento de projetos do mercado global.

Aprovado em outubro de 2006, esse Código de Ética e Conduta Profissional revisado não só descreve os valores éticos aspirados pela comunidade global de gerenciamento de projetos, mas também aborda a conduta específica que é obrigatória para cada indivíduo vinculado por este Código.

Motivadores do Código de Ética do PMI

A necessidade de um código de ética foi enfatizada por uma variedade de atividades ilegais que ocorreram: Watergate (1972), Cendant (1998), Enron Scandal (2001), WorldCom (2002), Tyco International (2002), Qwest Communications (2002), HealthSouth (2003), Fannie Mae (2006), propinas corporativas e “payoffs” são alguns exemplos. A grande cobertura da mídia, o interesse público e a preocupação com tais condutas fizeram com que as organizações profissionais revisassem ou estabelecessem novos códigos de ética.

Os códigos de ética para organizações profissionais são vistos como um meio de cumprir vários objetivos. Esses objetivos incluem:

  • Fornecer orientações para membros em áreas cinzentas de conduta profissional,
  • Lembrar os membros dos seus requisitos morais e legais,
  • Dar publicidade aos padrões de conduta da organização,
  • Dar publicidade dos padrões de conduta que a organização espera de seus associados,
  • Promover a confiança pública na profissão, e
  • Promover a auto-regulação com o objetivo de se adequar à regulamentação governamental.

A ética é sobre tomar as melhores decisões possíveis sobre pessoas, recursos e meio ambiente. As escolhas éticas diminuem o risco, promovem resultados positivos, aumentam a confiança, determinam o sucesso a longo prazo e criam reputações. A liderança é absolutamente dependente de escolhas éticas.

Reflexões para o Ano Novo

Voltando ao início desse texto e reconectando-o ao nosso momento presente. Faço os seguintes questionamentos aos colegas gerentes de projetos:

  1. Você alguma vez foi coagido por chefes ou mesmo clientes para manter uma folha de pagamento fantasma?
  2. Você alguma vez precisou avalizar aquisições sem valor, onerando custos de um projeto?
  3. Você alguma vez precisou fazer entregas desprovidas de valor e qualidade, arranjadas com os clientes para liberação de pagamentos?
  4. Você alguma vez precisou demitir colaboradores valiosos para poder abrigar nos projetos alguma forma de apadrinhados?
  5. Quantos projetos você viu afundar, simplesmente por não te deixarem fazer uma gestão honesta pautada em princípios alinhados ao código de ética da nossa profissão?
  6. Você alguma vez precisou forjar resultados, para ganhos de comissões ou liberação de pagamentos?

Mesmo que a justificativa para ter realizado uma ou mais das ações citadas acima seja a manutenção do emprego, devemos nos perguntar sem medo de ferir nossos egos e arranhar nossas consciências: De alguma forma eu colaborei com alguma ação antiética ou fraudulenta? Sou totalmente honesto, quando nas redes sociais abomino a corrupção e os males que ela causa na sociedade?

Que tal voltarmos ao nosso código de ética com mais assiduidade? Por que não o imprimimos e entregamos aos nossos patrões e clientes, antes de iniciar qualquer relacionamento? Se os contratantes querem um PMP, então precisam estar cientes que levarão o pacote completo – técnica e ética – e não apenas um capataz para tocar obras e serviços servindo a interesses questionáveis. Vamos tentar valorizar nossa profissão, começando do básico que é postura ética. Se não fizermos isso, em pouco tempo, estaremos tão desacreditados como os políticos brasileiros estão atualmente.

Muitos que leram esse artigo, estarão agora dizendo que essas coisas acontecem em todos os lugares, até nos ditos países de primeiro mundo. Isso é fato. Onde existem homens existem desvios e erros. Nem por isso, devemos lutar menos pelo que é certo, mesmo que o conceito de ética e os princípios morais se tornem mais elásticos, a sociedade sempre se valerá deles para nortear o comportamento humano segundo valores do bem e da decência pública.

Se temos o desejo sincero que do caos atual surja uma nova sociedade, novas lideranças políticas e empresariais precisamos fomentar, não apenas com palavras, mas sobretudo com ações, novos paradigmas éticos contrários as velhas e oligárquicas práticas.

Que 2018 seja um ótimo ano para todos nós!

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2 comentários em “Ética e Gestão de Projetos

  1. Gleidson Responder

    Olá Ana,
    Parabéns pelo excelente artigo e, sobretudo, pela profunda reflexão a respeito da ética, tão rara!

    Sejamos, nós mesmos, os agentes impulsionadores de uma mudança sustentável!

    Grande abraço!

    • Ana-Brugger Autor do postResponder

      Obrigada Gleidson,
      Concordo plenamente com você, como gestores temos um importante papel nesse processo de mudanças tão necessário a nossa sociedade.

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